João Wlamir

julho 14, 2011

por Mariana Faria

Dominante de um senso criativo magnífico, João Wlamir conta um pouco da sua trajetória versátil que o levou a chegar com êxito a um patamar tão alto na sua carreira profissional. Destemido, ele não ousa em falar sobre as verdades do meio e alerta aos futuros bailarinos para a realidade desse mundo encantador que é a dança.

DK: O que você dançou como bailarino que foi mais marcante na sua vida profissional?

JW: Todos os balés que eu dancei eu gostava muito, mas o que mais me marcou foi Hilarion em Giselle.

DK: Você enfrentou alguma dificuldade ao longo da sua trajetória?

JW: Sim. Eu comecei a dançar com 21 anos e eu fazia Ed. física, meu corpo já era todo formado em uma estrutura diferente. Então tive que fazer muito alongamento e correr atrás do tempo perdido. A minha dificuldade maior foi essa, mas não tenho nada a reclamar da minha carreira, porque sempre ganhei coisas que achava que não poderia fazer. Então todos os papeis, as performances, que eu fiz foram muito bons pra mim. Não encaro como uma dificuldade e sim como um crescimento, como um trabalho. Foi uma superação. A cada etapa vencida era mais um degrau que eu subia.

DK: O que o Theatro Municipal representa pra você?

JW: O Theatro Municipal é um divisor. Você sai de uma etapa amadora e parte para uma categoria profissional. Na realidade o Municipal é meu alicerce, meu porto seguro.

Ele é poderoso, é uma escola. E ao integrar aquele espaço, você aprende muita coisa.

DK: O que você tem a falar sobre o festival de Joinvile?

JW: Sou conselheiro do festival de Joinvile. Vejo que aquilo ali é de uma importância brutal para os bailarinos e pra mim também pessoalmente.

Trabalho em Joinvile há mais ou menos há 10 anos. Fui jurado, do clássico, do jazz, da dança contemporânea, fiz a noite de gala dos 25 anos e vou fazer também a gala dos 30 anos junto com a Fernanda chamas ano que vem. Joinvile também é um porto, onde se tem uma estrutura fantástica pra você trocar ideias, desenvolver seu trabalho e seu conhecimento.

DK: Você foi por muito tempo jurado do festival de Joinvile e agora participa do programa Se Ela Dança Eu Danço. Pra você é diferente julgar na televisão?

JW: Sim, é diferente. Na televisão é preciso estar com dez olhos ao mesmo tempo. Você tem que estar com os ouvidos sempre muito atentos, porque ao mesmo tempo em que o diretor está te dirigindo, você precisa prestar atenção no candidato. Você tem que sempre estar com a ideia de que é televisão e requer alguns ganchos para prender o telespectador, então tem que prestar atenção naquilo que se vai falar. E também tem o personagem que eu tenho que fazer. É tudo muito sério, eu sou um cara sério no julgamento. Aquele sujeito que julga mais rigidamente que todo mundo. È tudo maximizado. É preciso estar muito atento com tudo que acontece a sua volta, não posso estar relaxado. O esgotamento é bem maior. Em Joinvile é uma coisa que você observa como artista. Depois de julgar, você vai pro seu Quarto hotel, pensa no que você viu. Tem um tempo maior pra você pensar. Você tem um trabalho mais confortável. Na televisão é tudo imediato e tem que estar muito atento para não errar.

DK: E o João Wlamir é tão durão quanto no programa?

JW: Eu sou sério no meu trabalho e naquilo que eu me proponho, mas também sou extremamente amoroso e compreensível. Acho que a arte da dança é séria. O balé clássico tem que ter uma disciplina que não vem acontecendo.  A gente ultimamente tem estado muito relaxado. Todo mundo acha que pode dançar, mas nem todo mundo pode ser bailarino e eu vejo isso muito agora com o programa.

DK: Quando o John Lennon se apresentou ele conseguiu arrancar algumas lágrimas suas. Ele te impressionou muito?

JW: O John Lennon foi uma surpresa maravilhosa. Ele é um artista nato, um talento puro, que há muito tempo que eu não vejo. O menino é realmente Genial. Eu o chamei pra fazer uma participação na minha peça (lado B) com o número apresentado no programa, a gente fica meio desconfiado. Será que foi um golpe de mestre que ele deu, com a morte do cisne?  Mas no ultimo dia da peça eu pedi pra ele improvisar, dentro do estilo dele que é o Hip Hop. Eu coloquei uma musica clássica, dei um beethoven na hora pra ele, e realmente o cara é incrível, tem uma musicalidade  uma espiritualidade, uma maneira de compor o movimento com principio meio e fim, improvisando.A cada dia que ele dançava eu me emocionava. Eu aposto todas as minhas fichas nele na vida profissional, independente do programa.

DK: Ele seria então seu candidato favorito?

JW: Sim.

DK: Como foi pra você fazer e dirigir a comédia dançada Lado B?

JW: A gente bailarino clássico, tem um espírito muito crítico. Por incrível que pareça a gente não é tão serio, não somos sisudos. Temos um humor miserável. A gente tem essa abordagem, essa maneira da gente se olhar e se sacanear. É aquela história a gente não pode passar isso para o publico, mas nós sabemos quem somos. Temos esse lado meio doido, áspero às vezes, mas a gente ama a dança. O balé clássico realmente é a arte perfeita.

DK: Como você vê a situação da dança no Brasil hoje?

JW: Eu comecei a fazer dança nos anos 80, e de lá pra cá o balé esta se tornado uma coisa corriqueira. O que eu estou gostando do programa é que a audiência é dada por um público mais simples. A dança tem se desmitificado. Hoje não é mais vista como uma arte de esquerda ou uma coisa esquisita. As pessoas querem se profissionalizar. A qualidade dos espetáculos e também dos bailarinos está muito melhor.

DK: Você tem alguma mensagem para deixar para os jovens que estão começando a vida profissional na dança?

JW: Tenho um conselho, ele é meio acido, mas é isso mesmo. Muitos escolhem a dança, mas a dança escolhe muito poucos.. A gente tem que ter essa mentalidade. Nem todo muito vai se tornar um grande bailarino ou um grande coreógrafo. A gente tenta, eu to tentando até hoje. A dança tem outros caminhos, a gente tenta embarcar, naquilo que a gente acha que vai ser bom.

 

Foto por Rodrigo Buas

Para ser boa bailarina, não basta ser excelente profissional. Tem que ser boa pessoa também. Conversamos com Mayara Magri, aluna revelação da Escola de Dança Petite Danse, e conferimos toda a simpatia de uma pequena mulher, mas grande bailarina. Leia a entrevista na íntegra e descubra o porquê de Mayara ter ganhado o mundo. Ou o mundo ter ganhado Mayara.

DK: Como é que você começou a dançar?

MM: Comecei a dançar com 8 anos, junto com as minhas irmãs. Entramos para o projeto Social “Dançar a Vida”, da Escola de Dança Petite Danse, e não tinha como minha família custear as mensalidades das três ao mesmo tempo. Entrei para o ballet porque meus pais me colocaram, mas quando comecei a dançar com a companhia da escola e a competir em festivais logo percebi que era aquilo que eu queria. Meu primeiro festival foi o CBDD, fiz um solo clássico, “O Cupido”, e ganhei em terceiro lugar. Lembro que reclamei com a minha mãe, disse a ela que foi muito curtinho, que queria ter dançado mais! E ela me disse pra ter calma que eu ainda iria dançar muito. Desde pequenininha eu já tinha essa vontade de estar mais no palco.

DK: Então você só fez ballet?

MM: No início sim, mas agora estou dançando outros estilos também, por causa da companhia. Estamos fazendo parte de um projeto, o “ Nos Passos da Dança”, e apresentamos no Rio de Janeiro inteiro, em que recebemos uma ajuda de custo mensal, como uma bolsa. O espetáculo conta toda a trajetória da dança, desde as danças de côrte até as danças populares do Brasil, como o samba. Tem jazz, moderno, contemporâneo, tem de tudo no espetáculo.

DK: Tem vários cartazes nas ruas, mas e a programação?

MM: Tá no site do projeto, o www.dancaravida.org.br . Já tem muita apresentação marcada, em Caxias, em Niterói, na Tijuca, no Leblon, e até em estações do Metrô. A entrada é gratuita, é pra todo mundo ir assistir, pra todos terem acesso, e tem sido muito legal, um sucesso.

DK: Falando em sucesso, como foi interpretar o “Cisne Negro”?

MM: Sempre tive muita vontade de fazer esse papel desde muito novinha. Acho que é o sonho de toda bailarina. Sempre pedia isso pra Patrícia Salgado, que é a nossa ensaiadora,e ela me dizia: “Calma, a sua hora vai chegar.”. Acabei dançando outras coisas até o dia em que ela me disse: “Pronto, chegou sua hora, você vai ser o ‘Cisne Negro’.” Eu queria muito, mas fiquei tensa! (risos). Começamos a trabalhar os mínimos detalhes, desde outubro de 2009. Tudo dentro do papel “Cisne Negro” tem um sentido, um por quê. A primeira apresentação foi em uma noite de gala que a Petite realizou no Teatro Odylo Costa Filho, na UERJ. Foi um trabalho muito minucioso, até porque a Patrícia já dançou esse papel e buscamos fazer tudo perfeito. Vi muitos vídeos também, e a remontagem que ela fez favoreceu bastante, além do bailarino que dançou comigo. Desde o início deu tudo muito certo. Calhou de ser na época do filme.Veio na hora certa.

“Acabei dançando outras coisas até o dia em que ela me disse: “Pronto, chegou sua hora, você vai ser o ‘Cisne Negro’.”

DK: E você pirou como a protagonista do filme?

MM: De jeito nenhum, temos que saber separar a nossa vida pessoal do ballet, até porque o ballet é uma representação; temos que sempre fazer com que aquilo seja real, mas não é como no filme, em que ela já tem problemas psicológicos. Ela já é louca, não é por causa do ballet. Isso ficou meio mal explicado no filme. É uma conjuntura de fatores que a fazem ser daquele jeito, como a mãe dela por exemplo.

DK: Sua mãe não é assim não, né?

MM: Claro que não, muito pelo contrário, minha mãe me apóia muito, ela tá sempre me acompanhando. Minha família adora. Quando fui pra Lausanne (Mayara participou do Prix, uma competição internacional para bailarinos de 15 a 18 anos na Suíça), a produção do evento acompanhou a trajetória de alguns candidatos. Escolheram de modo aleatório, e me filmaram desde os ensaios até o camarim, na preparação para o palco. Foi a primeira vez em que a minha mãe me viu nesses momentos de bastidores, me arrumando para entrar em cena, porque ela sempre ficou na platéia, sempre do outro lado. Ela nunca viveu isso até ver o vídeo, que estava no blog da competição. Fizeram transmissão ao vivo das apresentações, e aí estourou; meu Facebook tava bombando quando cheguei de viagem. Eram mil mensagens de carinho, motivação, de gente que nem conheço que me viu dançando outras vezes e me parabenizou por eu ter melhorado muito.

DK: Isso foi notável, principalmente na sua apresentação no Festival de Joinville. As pessoas comentavam sobre você com a maior euforia!

MM: Dancei no Festival e as pessoas me paravam, me pediam para tirar fotos, dar autógrafos. Isso não é muito normal, só tenho 16 anos  (risos)! Foi a primeira vez em que dei autógrafo, não tinha idéia de como fazer isso. Aconteceu quando entrei de penetra com a Patrícia numa das noites de apresentação do Festival e o segurança da platéia veio até mim. Na mesma hora pensei: “Meu Deus, ele vai tirar a gente daqui!”. Ele me perguntou: “Você é a Mayara Magri?”. Respondi que sim. Então ele me disse que tinha umas meninas querendo tirar fotos comigo. Perguntei pra Patrícia: “Como que faz isso?”! Nunca tinha dado autógrafo na vida! Depois de Joinville foi muito diferente; as pessoas realmente acompanham meu trabalho, é muito gratificante.

DK: A Mayara tem tempo de estudar e de dançar; mas ela tem tempo de ficar com os amigos e namorar? E a competição, a inveja; rola muito?

MM: Claro, meus melhores amigos estão aqui na Escola de Dança, na verdade. Quando estou fora daqui (Petite Danse), cuido de mim; fico com minha família, com meus amigos, passeio, adoro ir à praia. Me protejo bastante, sou muito católica, gosto muito de cuidar do meu lado espiritual. É importante desligar um pouco do ballet para se manter bem. Mas quando entro na escola de dança, fico totalmente focada. O dia em que meu foco estiver no lugar errado, quero que venham me falar, pelo amor de Deus (risos)! Geralmente passo mais tempo aqui do que em casa. Agora estou fazendo curso de inglês também, porque vou viajar pra Londres em Setembro (Mayara foi admitida no Royal Ballet School, na Inglaterra).

DK: Como foi a primeira vez que você foi dançar ballet no exterior?

MM: Aos 14 anos fui fazer um curso de 3 semanas e participar de um concurso no Ballet Nacional de Cuba. Foi um workshop, foi maravilhoso. Apesar de a técnica ser outra, é um estilo muito bom, aprendi muito, senti uma grande diferença no meu corpo. Recomendo pra todos. No mesmo ano fui pra Nova Iorque; fiquei entre as “Top 12” da minha categoria. E fui pra Córdoba, na Argentina, pra disputar a vaga de Lausanne, uma viagem com tudo pago. Ganhei como melhor bailarina em Joinville e com o prêmio veio a oportunidade de ir à Córdoba. Essas viagens foram custeadas também pelo patrocínio que tenho desde 2009 com uma empresa dirigida por um grupo de mulheres, mas vem ficando mais difícil pra elas bancarem grande parte dos gastos, já que antes as viagens eram só nacionais, e agora são voos para o exterior. Não tem como minha família bancar tudo, até porque minha irmã mais nova faz ballet também. E ela vai pro Stuttgart Ballet, na Alemanha! Nós duas vamos sair de casa, minha mãe vai ficar só com uma filha, ela vai ficar louca! (risos)

DK: Como foi essa escolha pelo Royal?

MM: Quando fui pra Lausanne pude escolher uma das escolas parceiras da competição para me candidatar à aluna. Eu já queria o Royal antes, é uma escola muito conceituada, tem um nome de peso. Assim que  mandei o email para a diretora da escola, a Gailene Stock respondeu na mesma hora! Parece até que ela estava em frente ao computador esperando meu email! Ela me mandou a proposta oferecendo tudo pago, alimentação, hospedagem, custos com roupas, sapatilhas, essas coisas. Era o que eu precisava, uma bolsa para o Royal. Foi um alívio, não só pelo que é a escola mas por tudo que eles irão me oferecer. Vou cursar o último ano de formação no ballet. Já vou entrar como aprendiz da companhia. Vou ver como ficará meu tempo para terminar a escola formal lá, farei de tudo para conciliar os dois.

DK: Agora que você foi chamada para o Royal, o que você vai fazer? Vai ficar por lá para sempre, vai só fazer esse um ano de curso e vai voltar…?

MM: Não sei bem ainda o que eu farei depois, até porque nunca fiquei tanto tempo fora de casa, vou fazer a experiência e ver o que acontece, como será a adaptação e tudo. Sei que vai ser difícil; minha família é muito unida. Mas quero fazer uma coisa de cada vez. Esse tempo no Royal será maravilhoso, até porque é uma escola de referência; sem emprego, ao menos, sei que não vou ficar!

DK: Como fica a sua cabeça com tudo isso que vem acontecendo? Agora que você explodiu em Joinville, Lausanne, Nova Iorque e foi admitida no Royal?

MM: Tá tudo no lugar! (risos). Procuro manter a humildade sempre; porque se deu certo assim até hoje, é esse o meio para acertar. Não vou mudar o meu jeito de pensar. Por mais que eu seja uma grande bailarina de uma grande companhia; estarei sempre aprendendo coisas novas. O ballet é o que quero pra minha vida. O que eu puder fazer para me aprimorar, farei; cursos, workshops, o que for preciso. Não dá pra dançar ballet para sempre, então tenho que pensar no futuro; quem sabe ser professora, sei lá. O que eu puder agarrar de bom, vou agarrar.

DK: Qual recado você deixa pras meninas que como você querem fazer ballet pra vida inteira?

MM: Primeiro de tudo, tem que ter foco. Pra ser bailarina tem que ser de tudo um pouco, tem que ser completa; tem que ter disciplina com horários, buscar ao máximo fazer aulas, trabalhar as suas dificuldades em sala, a constância de um desenvolvimento de aprendizado dentro do ballet, pra quando chegar no palco fazer bonito. Manter uma boa desenvoltura nas aulas para garantir uma boa técnica. Dar sempre um passo à frente a cada dia. Fazer sempre um pouco a mais. Buscar melhorar. Foi o que ocorreu comigo; um ensaio atrás do outro, uma preocupação com os detalhes, tudo bem à risca. Alimentar-se bem é muito importante. Ter uma boa alimentação é indispensável para manter a musculatura forte e a boa saúde. O foco é importante para que dê certo. Só dá certo no palco, na vida, se você faz tudo certo. Tento fazer dar certo. Até agora deu, né!

Priscila Mota e Rodrigo Negri

fevereiro 17, 2011

por Roberta Camargo

O Dance Klass News foi até a Cidade do Samba, em Gamboa, no Rio, para entrevistar dois dos melhores frutos do Carnaval carioca de 2010: Rodrigo Negri e Priscila Mota. Vindos do Theatro Municipal, os dois coreografaram a comissão de frente que explodiu na Sapucaí: com “O Segredo” como tema do enredo, a rápida troca de roupa da Unidos da Tijuca em plena avenida surpreendeu a todos. Confira, na íntegra, qual foi a trajetória secreta do grupo e o que o casal de coreógrafos anda guardando na manga para este ano.

Rodrigo e Priscila na Sapucai

 

DK: Como vocês foram parar no carnaval?

PM: A gente sempre gostou de Carnaval, íamos aos desfiles, ficávamos na arquibancada, pagávamos para desfilar com fantasia e tal. E como somos bailarinos surgiram convites pra irmos dançar em comissão de frente. Aos poucos eu virei assistente, o Rodrigo foi convidado para coreografar outras escolas e a gente se separou. Cada um meio que tomou seu rumo e ficamos trabalhando separadamente até 2008, quando fomos convidados para assumir juntos a comissão da “Unidos”.

RN: Esse é o nosso 4º ano.

PM: A “Unidos da Tijuca” já era do grupo especial, uma dessas escolas de ponta nessa época.

RN: A Escola estava com o Paulo Barros desde 2004, que deu uma modificada no layout da “Unidos”. Antes disso a Escola já era reconhecida, mas sempre ficava ali entre nono e décimo lugar. Agora é uma Escola que toda vez em que aponta na avenida todo mundo já espera uma novidade, uma inovação, até pela linha do Paulo, que contribuiu muito para o sucesso da Escola.

DK: Como vocês tiveram essa idéia do “Segredo”?

RN: O Paulo veio com a proposta de trazer o ilusionismo na comissão de frente.

PM: Primeiro surgiu o enredo dele, que era o Segredo abordado de diversas maneiras. Para abrir o desfile ele quis o ilusionismo porque todo mágico tem um grande segredo. E só poderíamos sintetizar o desfile inteiro na comissão de frente por meio da mágica. Esse seria o nosso tema. A partir daí começamos a estudar várias maneiras de trazer o ilusionismo para avenida, só que isso num palco aberto como a Sapucaí é muito complicado. Todo mágico tem um fundo falso, uma coisa na manga, e como fazer isso sendo observado por todos os lados? Então optamos por este truque que foi muito difícil de fazer principalmente por causa do palco aberto, mas um dos mais possíveis.

DK: De onde saiu esse truque?

RN: Na verdade veio num estalo. Em um programa de televisão, anos atrás, num desses quadros de mágica, apareceu o quick change, feito por um casal de Las Vegas. Isso me marcou muito. E quando veio essa idéia a gente lembrou-se desse truque e mandamos os vídeos pra ele (Paulo Barros). Esse nem era nosso plano A, era nosso plano B.

PM: Não tínhamos só esse truque, como também outros dois ou três que eram tão bons e tão impossíveis quanto;

RN: O plano B só foi para avenida porque o outro era muito difícil, muito caro, e foi o plano B que modificou o Carnaval. A gente não esperava toda essa repercussão, esse “boom”, foi uma coisa que nunca se viu igual na avenida, nunca se viu no carnaval. Chega até ser meio assustador, porque não esperávamos mesmo tudo isso.

DK: Quanto tempo de ensaio antes de levar “O Segredo” pra avenida?

PM: Com o grupo três meses, comigo desde maio de 2009, que foi quando decidimos que essa seria uma dessas idéias. Nós começamos a estudar tecido, coloração, caimento; trouxe um monte de vestidos meus de casa pra rasgar e ver qual ficava melhor, e fizemos os testes. A gente acaba fazendo muita besteira até chegar ao produto final, no nosso objetivo; rasgamos e gastamos vários metros de tecidos; todo dia a gente testava, testava e testava. Só a construção de uma comissão de frente já é muito trabalhosa.

RN: A gente não pensa só na coreografia; pensamos na produção de tudo. A comissão carrega a escola.

DK: Eles já ensaiavam com o figurino que foi pra Sapucaí?

RN: Sim, em janeiro eles receberam o figurino e já começaram a ensaiar com as mesmas peças que foram pra avenida.

PM: A confecção foi cara e não podíamos ensaiar com uma coisa e dançar com outra. Na verdade o figurino foi a estrela do desfile, da comissão. Tínhamos que organizar todo aquele show para os figurinos aparecerem, porque a coreografia virou coadjuvante da grande estrela que era a troca de roupas.

RN: E cada figurino era um material muito pessoal, cênico; é como uma sapatilha de ponta, cada um tem a sua. Cada um era responsável pelo seu vestido, levava pra casa, ajeitava, costurava.

PM: E o figurino ficou em teste o tempo todo.

DK: Quem fez as roupas?

PM: A gente tinha uma costureira da escola e ela foi eleita especificamente pra isso. Coitada, não tinha como ela fazer mais nada. Tomei a vida dela, saía de casa de manhã, passava o dia inteiro na casa dela e ía para o ensaio todos os dias até todas as roupas ficarem prontas.

DK: E quantas bailarinas eram? Quantos figurinos?

PM: 18 bailarinas, seis roupas por bailarina… dá umas 108 peças. A gente trocava de roupa milhares de vezes na avenida.  Tinha um tripé em forma de boca-de-cena de teatro, uma cortina era aberta, e havia a troca entre os grupos. A coreografia era tão organizada para que o público não percebesse que realmente ninguém se dava conta de que elas trocavam entre si, uma troca que levava 20 segundos, entrava um grupo e saía outro. Era muito rápido!

DK: Como foi a seleção? Vocês já divulgaram que era pra esse truque?

RN: Fizemos audição em setembro, e era tudo segredo (risos). Porque é um show!  A proposta na audição foi isso, quem tinha carão, no estilo show mesmo.

PM: Como eram 18 e só apareciam 6, a nossa idéia era que na hora da troca de roupa entre elas isso não fosse perceptível ao público. Então pegamos um perfil parecido de altura, de rosto, de biótipo mesmo, pra elas não ficarem muito diferentes. Inclusive nossa caracterização durou 9 horas, porque afinamos o nariz de todas, cada uma ficou com o olho do mesmo tamanho, a sobrancelha foi apagada e redesenhada para que todas ficassem com o mesmo rosto; tudo foi estudado previamente com a equipe de maquiagem para elas ficarem iguais.

RN: Eu mesmo não reconheço, olhando as fotos, não consigo identificar quem é quem.

 

 

 

 

DK: Como foi esse período de 9 horas, essa preparação…teve algum pré-ensaio?

PM: Teve, claro, ficamos concentrados o dia inteiro, almoçamos, fizemos alongamento, rolou até uma yoga  e aí começou a maquiagem.

RN: Sempre antes de ir pra avenida têm aquela passadinha pra garantir, aquela “vamos testar o vestido pra ver como fica”, essas coisas.

DK: Como é que foi isso? Porque era tudo novo…

PM: A gente não sabia se ia agradar…

RN: O nervosismo era grande! A gente chegou na avenida isolado, ninguém sabia o que ia acontecer. Quando chega próximo do carnaval, por volta de dez, onze horas da noite as comissões ficam ensaiando; então acaba que todo mundo assiste o outro trabalho e as pessoas têm noção do que está acontecendo. Um parabeniza o outro, diz que está bacana. Mas nós não tínhamos esse feedback; ninguém tinha visto! Nós não sabíamos se estava legal.

PM: É meio bobo a gente se esconder sem propósito, mas “O Segredo” era um tema que precisava ser feito escondido;  se todo mundo soubesse o que é, não seria segredo! Nós escondemos porque não tinha como ensaiar com todo mundo olhando. Não é porque um outro coreógrafo assiste o nosso trabalho que ele vai mudar a coreografia por causa da nossa; isso não acontece. É mais por causa do propósito da coisa. O impacto é muito maior quando ninguém sabe o que é. Ensaiávamos de madrugada, escondido. Ninguém sabia o que íamos fazer; absolutamente ninguém. Nem os componentes da escola sabiam.

DK: Teve algum tipo de contrato com os bailarinos pra manter o segredo? Como eles lidaram com isso?

RN: Não, a gente acredita nos nossos bailarinos.

PM: É tudo no olhar, a gente olha no olho e fala não pode contar.  Eles curtem isso, eles seguram a idéia, mentem pra família, é muito engraçado. Depois a mãe reclama: “Ah, você mentiu pra mim!”. Eles adoram tudo isso. É bom você trabalhar com um grupo que compre a sua idéia, que leva a sério. Não adianta ter bons bailarinos se eles não estão comprometidos com o propósito e com o conceito da idéia. Então o grande mérito do nosso grupo realmente é o fato de eles se comprometerem demais com o trabalho. Qualquer horário de ensaio é horário, qualquer segredo é segredo eles não abrem pra ninguém, a gente está sempre concentrado. O nosso primeiro ensaio é o nosso primeiro dia de concentração. A gente está alí focado, junto, no desfile, a gente sabe que a família a gente não vê muito, rola umas crises, porque realmente a nossa vida fica em função disso

A partir daqui Rodrigo precisou deixar a entrevista pra resolver alguns assuntos referentes à comissão (a entrevista foi realizada entre os ensaios do grupo).

DK: Como você concilia o Carnaval com a vida de bailarina?

PM: A juventude traz uma energia, então o fato de ser jovem a gente se organiza muito, primeiro, nós somos muito organizados com nossos horários. A gente está de férias no teatro agora, então a partir do primeiro dia em que entramos de férias a gente já vem direto pra cá e daí durante o ano que a gente tem a rotina de espetáculo, quando a gente tem espetáculo, tem que conciliar, ou fica por telefone, com o Paulo, por email, neste ano realmente foi muito complicado, pela nossa rotina, mas a gente dá um jeito.

DK: Como foi depois do Carnaval?

PM: Depois que acabou o Carnaval foi todo um sucesso, um estouro, e tal… Na verdade, foi muito engraçado, depois do desfile das campeãs no sábado, logo na segunda-feira o telefone tocou aqui no Barracão. Era uma noiva dizendo que ia casar em novembro e queria contratar o show da escola. Aí responderam: “Então será o show da escola, bateria, passista, está fechado.” e ela disse: “Não, não quero nada disso, quero a comissão de frente.” Disseram a ela que a comissão de frente não fazia show. Mas o presidente da escola interveio: “Peraí, não fazia! Vai fazer a partir de agora.” O primeiro show contratado foi dessa noiva. Depois vários convites surgiram, fizemos várias coisas, participamos da premiação da CBF no Theatro Municipal, da Liga Mundial de Vôlei, num jogo do Brasil, fomos pra Barretos, fizemos o Salão do Automóvel, temos feito shows pra todo tipo de cliente. Temos evento marcado até 25 de março com um grande banco. Faremos 7 capitais, vamos viajar hoje.

DK: Na semana seguinte do desfile apareceu um programa de televisão explicando o que era “o segredo”.

PM: Foi o dia em que ficou mais claro o que estava acontecendo. Na verdade, eles acharam que desvendaram o que a gente faz, mas o que fazemos não é aquilo. Quando eles fizeram todas as roupas ficaram, mas com as nossas não.

DK : E como é que funciona?

PM: É segredo!!!

DK: E na avenida como foi? Deu alguma coisa errada?

PM: Não, foi tudo certo, tudo perfeito, porque a gente ensaiou muito, fomos muito frios pro desfile.

DK: Vocês não esperavam esse sucesso todo?

PM: Não, absolutamente não. Inclusive eu e Rodrigo achávamos tudo muito simples, a gente via e pensava “será que as pessoas vão curtir só isso”? Estávamos tão envolvidos, meses e meses ensaiando, que pra gente era comum ver aquilo. Só tivemos um feedback antes do desfile que foi o cozinheiro aqui da escola, que se escondeu pra assistir o ensaio. Fomos ensaiar lá fora às 3 horas da manhã e ele viu tudo por uma frestinha de janela. Depois ele desceu chorando pra falar com a gente, dizendo que ele tinha ficado super emocionado e que com certeza a gente ia ganhar o estandarte de ouro. O carnavalesco viu, achou incrível também. Ficou a nossa impressão: alguma coisa vai mudar na nossa vida porque isso é muito especial. Mas nós não tínhamos certeza disso, só na avenida.

DK: E vocês ganharam o estandarte de ouro…

PM: Ganhamos todos os 7 prêmios que o Carnaval oferece.  Os prêmios são muito bacanas pela visibilidade que dão, acho que coroam o nosso trabalho que foi muito desgastante, mas as notas são o que realmente importa e foram todas 10. Conseguimos ajudar a Escola, porque estamos aqui pra somar, agregar para um resultado final que é geral, o campeonato, e se a gente conseguiu ajudar nesse objetivo, essa é a nossa função.  Se vier prêmio, show, é consequência muito bem-vinda, mas lutamos pela nota. Ganhamos o campeonato também. A comissão abriu com chave de ouro um desfile que foi incrível, perfeito em termos de harmonia, de alegoria, de fantasia. Só que a comissão fez um papel que até hoje não foi visto que foi trazer o público pra dentro do desfile. O público participou, reagia a cada troca de roupa, e isso foi embalando as pessoas, a escola, os componentes. A apresentação da comissão embalou um desfile que tinha tudo pra ser perfeito.

DK: A “Unidos da Tijuca” sofreu duras críticas também, alguns dizem que o desfile não é Carnaval. O que você acha disso?

PM: Quem está no olho do furacão é sempre muito criticado. O público responde muito melhor do que nós. Lutamos por aquilo que achamos bacana, e a melhor resposta de que está dando certo é a reação do público, não tem crítica que possa superar isso. Se a massa inteira do Sambódromo urrava com a apresentação da escola, porque a crítica? Carnaval é a festa do povo, da alegria, e se o povo gosta do que está vendo ele reage. As críticas são aceitas, acho que quem tem boca fala o que quer, mas contra milhões de pessoas não tem como ir contra.

DK: Quando vemos vocês na Sapucaí? A próxima comissão vai dar um show como foi a anterior?

PM: Seremos a quarta escola a desfilar, deve entrar entre 00:30h e 1 hora da manhã, no dia 6 de março. E vai dar show com certeza, é totalmente diferente, acho até legal frisar isso, há um contraste muito forte entre o ano passado e esse ano. Queremos ser comparados com as outras escolas, e não com o que fizemos. Não existe comparação com a comissão anterior, a proposta deste ano tem tudo haver com o enredo de 2011. São várias novidades, a base do grupo é a mesma, são as mesmas pessoas, mas o caminho e o conceito são totalmente diferentes.

DK: Qual é o segredo deste ano?

PM: É um mistério! (risos). Tem tudo haver com o enredo, dá medo (o enredo deste ano chama-se “Essa noite levarei sua alma”), e acho que vamos causar reações de novo, reações diversas, e vai ser bem polêmico. Vai ser muito bom.

Por Roberta Camargo

Thiago Soares

Em uma das suas rápidas passagens pelo Brasil, o destaque do Royal Ballet of London, Thiago Soares, nos falou sobre sua vida e a dança, que, para o bailarino, são uma coisa só. Aos 29 anos, Thiago já conta com uma longa carreira artística, marcada por apresentações no mundo todo. Muito humilde, a boa energia do rapaz tornou a entrevista contagiante. Confira porque Thiago Soares é um dos grandes nomes da dança na atualidade, não só profissionalmente, mas como personalidade também.

K.K.: Quando você começou a dançar?

T.S.: Não foi uma coisa que eu decidi. A dança foi meio que me chamando aos poucos. Comecei dançando street dance na Academia de Dança Spinelli. O grupo Jazz de Rua do Rio de Janeiro viajava pras competições nacionais. O fator de performance na dança me fascinou; de você chegar em um lugar, começar a dançar e prender a atenção de todos. O coreógrafo do grupo disse-me que eu tinha perna e pescoço longos, pés esticados, e que eu podia fazer ballet, jazz e dança contemporânea pra me aperfeiçoar no street dance. Eu tinha uns 14 ou 15 anos e isso de dança clássica, com sapatilha e tal, era muito distante. Mas ele me indicou para o curso profissionalizante no Centro de Dança Rio. Ganhei bolsa direto, precisavam de um menino. Só que era obrigado a fazer jazz, ballet clássico, anatomia, dança afro, tudo que envolve o curso. Comecei todo perdido, fazendo aula de meias!

K.K.: Como era o Thiago nesse início de carreira?

T.S.: Até mais ou menos a idade em que comecei a dançar, sempre fui um ninguém (risos).  Era o magrelo, nunca fui o bonitinho, o popular; e com a dança, podia ser alguém. Deram-me a maior força, e representei a escola em competições nacionais. Em 1998 ganhei o CBDD. Fui representar o Brasil no exterior. Eu não tinha nem dois anos de ballet! Mas ganhei nossa primeira medalha de prata. Antes dessa não tivemos nenhuma, e meio que entrei pra História da Dança, consequentemente. As portas se abriram e me convidaram pra ir pro Theatro Municipal (do Rio de Janeiro). Naquele momento percebi que essa seria minha profissão. Comecei como solista. Dançava pelo país até que, em 2001, fui com a Roberta (Marquez) representar o Brasil em Moscou. Fui pro Oscar da dança clássica! Foi um sonho se tornando realidade. Estava muito inseguro porque fomos competindo no sênior. Ganhamos prêmio como casal, e trouxe o ouro como bailarino. Isso me marcou muito, porque aí tudo deslanchou. Fui convidado pra dançar no exterior. Mas volta e meia eu voltava pro Brasil pra dançar algo.

K.K.: Você nunca deixou o Brasil, então?

T.S.: Sempre tentei me manter por aqui. Depois do concurso fui chamado para estagiar no Kirov, em São Petesburgo. Foi muito difícil porque estagiário não faz nada, só fica lá atrás, no fundo, aprendendo, fazendo muita aula. Mas era uma grande oportunidade de estar ali para ganhar experiência. Fui convidado pra dançar na Cia Estadual de Moscou, e fiz um tour com vários ballets de repertório. Minha bagagem aumentou, pois fiz vários grandes papéis. Nas férias eu vim para o Rio, e me aconselharam a procurar algo mais consistente.

K.K.: Foi aí que você entrou para o Royal?

T.S.: Decidi fazer a audição. Eles disseram que já sabiam que eu dançava há um bom tempo, mas que eu tinha que começar de baixo. O Royal é uma Cia que te dá um banho de “british style”. No início foi muito ruim, porque você é sempre o príncipe, o “tal”, e chegando lá meu lugar era no fundão. Quando alguém se machucava a diretora me dava alguns papéis. Fiz todo tipo de papel. Foi um passo que dei para trás e que me valeu três passos para frente. E o Royal é uma Cia maravilhosa. É realmente tudo aquilo que a gente sonha.

K.K.: Daí você rumou para o estrelato…

T.S.:  Foi quando a coisa estourou. Em 2006 fui promovido à estrela da Cia e a minha vida mudou. Minha agenda começou a ficar bem internacional. Mas o mérito não é só meu, minha trajetória foi muito saber ouvir as pessoas que me davam toques. Tive muita sorte de tê-las ao meu lado, porque às vezes você é um bom artista mas é mal dirigido. Tive a sorte de estar no lugar certo e no momento certo com as pessoas certas, que sempre me ajudaram com incentivos e conselhos. Estou bastante contente com esse momento da minha carreira, porque dança é uma carreira difícil.

K.K.: Você abdicou de muita coisa?

T.S.: Sim. Mas sempre tentei balancear diversão e trabalho. Até porque como artista você tem que viver experiências pra ir enchendo sua mochila. Tem muita carreira por aí que você trabalha demais e só consegue se estabilizar aos 45 anos. Com a dança, já consegui minha estabilidade. Agradeço a Deus sempre, pois sei que poucos podem viver isso tão jovem.

K.K.: Quantas sapatilhas você gasta por mês? A rotina de trabalho é de quantas horas por dia?

T.S.: Uso quantas eu quiser, eles me dão. Não muito. Umas 4 ou 5 por mês. Tem menina que usa duas por dia. Lá, tem dias que pegamos de 10h e meia da manhã até meia noite, porque tem espetáculo. Às seis tem uma pausa para comer, essas coisas, e você se apresenta. Agora que sou primeiro bailarino não trabalho quando o espetáculo é de tarde, só me apresento. Mas tem dias que você tem dois espetáculos, um atrás do outro.

K.K.: Você está em Londres, esteve em Moscou, viajou pelo mundo… Como é a diferença no tratamento das pessoas? O contraste dos estrangeiros, com a gente?

T.S.: O público do Brasil e os colegas em geral são gente maravilhosa. Aqui é um ambiente super  bacana, o calor cotidiano daqui é incomparável. Já me acostumei com muita coisa da cultura inglesa. Eles são mais contidos, mais reservados. E os russos são ótimos, sempre gostei de trabalhar com eles. O público no exterior é mais controlado, o pessoal daqui é mais caloroso. Eles reverenciam o artista, mas isso tem muito haver com a identidade do povo. Nunca sofri preconceito por ser brasileiro, pelo contrário; por esse fato, as pessoas se atraem mais. Acho que elas vêem no brasileiro algo de exótico.

K.K: Você sempre fez clássico?

T.S.: No Royal a gente faz muitas coisas modernas. É uma carreira tão bonita, a de dança. Quem entende o que é dançar sabe o quanto é difícil parar de dançar. É um poder físico que temos, é um dom. No mundo todo há bailarinos que trabalham de graça. Em outra profissão as pessoas não entenderão isso. Há uns dois atrás arrebentei a fáscia plantar, uma lesão braba. Fiquei de muletas. Foi quando pensei: a dança é minha vida, sem a dança não sou nada. Pensei em aprender outras profissões. Fiz um pouco de backstage, e me fascinou. A vida de artista pode te levar para outras águas. Pretendo aprender coisas diferentes, mas num futuro bem distante.

K.K.: E o apoio da família, rolou preconceito? E com os amigos?

T.S.: Meu pai nunca teve preconceito com dança. Ele sempre soube que eu era um jovem adulto. Ele não se preocupava com meu caráter, com a minha constituição com relação à orientação sexual. A preocupação dele foi com o dinheiro, porque no início era tudo contadinho. Mas quando entrei pro Theatro e comecei a ganhar mais que ele, meu pai relaxou. Ele e minha mãe são grandes fãs meus. Mas na escola tiveram muitas zoações. Coisa de garoto, nada que me fizesse mal. Um dia, um amigo ligou pra minha casa e minha mãe disse: “O Thiago tá nesse negócio de ballet.” Meu amigo respondeu: “Como é? Conta isso direito, tia!” (risos). Mas acho que o preconceito está na gente. Criou-se uma mentalidade com relação à profissão. Tem muito gay em ballet? Tem. Mas o mundo é gay! O fato de você ser gay ou não, para mim, não tem nada haver.  Esse movimento de preconceito na dança é só com os homens; tem muita mulher lésbica que dança e ninguém comenta. Temos que mudar essa mentalidade antiga. Hoje em dia isso nem existe na Europa. Isso é pra dar o que falar e criar barreiras pra dança aqui no Brasil.

K.K.: O que nos atrasa?

T.S.: Falta de apoio político financeiro. A dança aqui sofre por não ser como na Europa, em que a prioridade é saúde, cultura e educação. Aqui cultura vem por último, atrás de tudo. Se a cultura fosse vista como prioridade a dança estaria bem melhor, teriam mais espetáculos, públicos maiores, etc. Precisamos de apoio, basicamente de dinheiro para dar infra-estrutura para a cultura. Precisamos de mais mercado pro artista. Na Europa é totalmente diferente. Lá fora é tradição ir ao teatro, as pessoas se arrumam para assistir a um espetáculo. Aqui não há isso, acho que em parte pelos teatros serem mal cuidados. Não tem glamour nenhum reunir a família e ir a um teatro aqui. Ir a um Lincoln Center, por exemplo, torna o dia inesquecível. As pessoas querem voltar porque o ambiente é muito bacana e os espetáculos são ótimos. Precisamos reviver essa cultura de ter bons teatros e grandes espetáculos. A cultura ajuda as pessoas a viverem melhor. Um bom espetáculo faz bem a qualquer um.

 

Eric Frederic

agosto 25, 2010

por Roberta Camargo

Eric Frederic

O Kerche&Kerche News conversou com Eric Frederic, mâitre de ballet que ensaia os bailarinos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro há, aproximadamente, um ano. Muito simpático, o belga nos contou detalhes sobre a sua vida, o cotidiano dos ensaios e as suas impressões sobre a dança no Brasil. Confira a entrevista completa com o dono do Estúdio Colombe, em Paris, França.

K&K News: Como foi a sua trajetória na dança até chegar aqui em nosso país?

Eric: Comecei indo para Bordeaux (região da França internacionalmente reconhecida pela intensa produção vinícola) especialmente para dançar. Acabei me tornando um especialista em vinhos também! (Risos) Dancei primeiro em musicais; mas passei pelo jazz, pelo ballet clássico, e até por óperas. É muito importante passar por todos os estilos de dança se um bailarino quiser ser completo. Agora é um costume ir direto para grandes escolas, porém é muito bom começar a carreira passando por tudo, aprendendo um pouco de cada coisa, pra que se possa ganhar experiência.

K&K News: Aonde você já dançou? Ainda atua como bailarino profissional?

Eric: Já dancei em muitos lugares . Um deles foi no corpo de baile francês em Flandres (Ballet Real de Flandres). Encerrei meu trabalho profissional como bailarino aos 38 anos, mas continuo dando aulas e coreografando.

K&K News: Além do Theatro, onde mais você dá aulas?

Eric: Tenho um estúdio próprio em Bordeaux, que é voltado para o público amador, somente para os adultos. Fazemos espetáculos não-profissionais, e temos alunos dos mais variados tipos, como dentistas ou médicos.

K&K News: Como foi vir para o Theatro no Brasil?

Eric: Recebi um convite para ser professor aqui. Vim fazer uma entrevista com a Dalal Achar, e o Municipal me queria de início por apenas seis semanas. Só que já estou há quase um ano (risos). Estamos inclusive ensaiando um espetáculo de coreografia moderna para esse mês (a entrevista foi feita em julho). Dou aulas de dança clássica, mas quando surgem espetáculos como esse pra que estamos ensaiando, trago elementos da dança moderna para melhor prepará-los para os ensaios. O nosso trabalho diário acaba ficando mais físico, mais aberto, diferenciado.

K&K News: Como está sendo a experiência de trabalhar aqui?

Eric: Estou adorando, é maravilhoso! As pessoas daqui são muito mais abertas, mais receptivas e calorosas. Difere muito da Europa, onde elas são mais fechadas. E aqui os bailarinos têm um corpo diferente, característico do povo brasileiro. É muito mais gostoso trabalhar no Brasil.

K&K News: A rotina de dança no exterior é bem diferente da nossa. Quais são as diferenças mais gritantes?

Eric: Nós ensaiamos de 10h da manhã às 16h da tarde; essa rotina, quando comparada com a européia, é muito confortável. Lá fora tudo é mais estruturado também, aqui é um pouco mais “cru”. Entretanto, essa história de que eles são mais compromissados e aplicados é ilusão. Os bailarinos europeus costumam reclamar e desistem rápido quando vêem uma nova proposta. Aqui, vocês fazem de tudo; as novas idéias são sempre bem recebidas. Isso é ótimo para um professor-coreógrafo, porque todos se aplicam, e, sem reclamações, os bailarinos aprendem logo as coisas novas, crescendo mais a cada dia. Vocês são muito mais aplicados e mais dedicados. Na escola é bem estruturado, e as coreografias mais difíceis e elaboradas eles fazem. Em pouco tempo a coreografia sai muito bem, às vezes em uma semana!Os bailarinos daqui querem sempre dar o melhor de si, abrem totalmente o coração pro professor-coreógrafo. Na Europa isso é impossível, as pessoas são mais lentas e mais complicadas, e tudo também é mais caro. Meus amigos franceses concordam comigo dizendo que é muito melhor de se trabalhar no Brasil.

K&K News: Qual a sua visão da dança no nosso país?

Eric: É muito positiva. Há muitas companhias clássicas e contemporâneas boas. Vocês têm um bom lado contemporâneo. Assisti a uma coreografia muito bonita do Alex Neoral, em que os bailarinos tinham base clássica. Esse é um país de dança! Todos os brasileiros dançam a todo tempo. Depois dos jogos da Copa do Mundo de futebol, todos iam pra rua dançar. É um povo que dança muito, deveria se exportar mais essa dança pelo mundo.

K&K News: Você acha que temos oportunidade de crescimento no meio de dança?

Eric: Claro que sim. Já há companhias que vão para fora para divulgar seus trabalhos, como a Deborah Colker, que anda pela Europa. Acho que o Theatro também deveria fazer uma turnê pela Europa pra propagar a cultura brasileira. Isso é uma sugestão minha,  de repente uma turnê com um ballet clássico que explore a cultura própria do país.

K&K News: Vale à pena tentar uma carreira fora do Brasil?

Eric: Vale muito à pena ir para o exterior. Os bailarinos daqui vão sempre para as melhores companhias do mundo, como o American Ballet Theater ou  o Convent Garden. É ótimo porque você tem contato com outras culturas e aprende com isso. Um dos melhores exemplos é a Roberta Marquez, que está no Convent. Ela tem um trabalho físico brasileiro, e agora está com um estilo inglês que se soma à sua técnica brasileira.

K&K News: Deixe um conselho pros jovens que desejam crescer na dança.

Eric: Devem beber só suco de fruta e parar de comer “joelho”! (risos) O trabalho é necessário; vocês precisam trabalhar mais se quiserem crescer. Trabalhem arduamente, tanto a técnica, quanto a parte teatral também. A técnica é muito importante, mas prefiro os bailarinos que se exprimem mais no palco. E trabalhem a musicalidade de vocês.

por Yuri Kraszczuk

Ana Botafogo

Ana Botafogo….. bailarina, bailarina, bailarina….. acima de tudo mulher, observadora, carismática, que ao ser apresentada à dança pequenininha, se apaixonou por esta dança, superou desafios e hoje tem o reconhecimento e o respeito do público e de várias  gerações que a tem como exemplo de determinação e dedicação a sua arte.

Uma mulher que em sua essência é bailarina, uma mulher multifacetada que em cada faceta tem um pouquinho da bailarina, uma mulher que tem seu lado família, tia, dona de casa e acima de tudo artista.

Tivemos a honra de entrevistá-la e agora temos o prazer de compartilhar tudo com vocês.

K&K News: Qual o momento mais marcante de sua vida?

Ana: Meu primeiro espetáculo como primeira bailarina do Theatro Municipal, acho que foi um divisor de águas em minha vida profissional, foi aí que comecei a ver a responsabilidade de ser uma figura principal de um teatro tradicional como o Theatro Municipal. No lado pessoal, citaria meus dois casamentos na igreja perante Deus; são dois momentos muitos importantes na minha vida de Ana Maria, não de Ana Botafogo. Foram momentos muito emocionantes porque ali não estava interpretando nenhum personagem, era apenas eu: achei que ia ter mais controle sobre todo este momento, mas me emocionei muito a ponto de não conseguir reter as lágrimas, porque isso é a história de minha vida.

K&K News: Que importância teve o Ballet de Marseille para a sua carreira?

Ana: Foi minha primeira experiência profissional. Cheguei ávida por conhecimento e num mundo ainda desconhecido para mim, ainda mais, porque estava num pais estrangeiro. De imediato tive um excelente começo numa das mais bem conceituadas cias. da Europa naquele momento. Aprendi muito sobre a profissão, sobretudo sobre profissionalismo. Tudo nesta Cia. funcionava maravilhosamente bem em termos de organização e estrutura. E foi logo na primeira semana como profissional na companhia de Roland Petit, que se chamava Les Ballets de Marseille que percebi que era àquela vida que ia me dedicar de corpo e alma. Aproveitei tudo o que pude, mas o meu sonho era dançar os grandes clássicos, e esse foi uns dos motivos que me fez sair da companhia, que era maravilhosa. Foi maravilhoso ter começado com coreografias de Roland Petit, o que me deu uma abertura de não ser só clássica e também fazer outros tipos de danças, acho que a partir daí foi desabrochando essa vontade de dançar vários estilos e de estar plena no palco.

K&K News: Quais as maiores dificuldades que você enfrentou em sua carreira?

Ana: Acho que primeiramente minha própria superação física, temos que ser “máster” deste nosso corpo. E depois a agonia sempre de saber superar o momento da volta aos exercícios de um machucado mais sério.

“O ARTISTA VEIO AO MUNDO PARA SUPERAR SEUS PRÓPRIOS LIMITES”

K&K News: E o ambiente trabalho, a disputa por um papel?

Ana: Em qualquer profissão, sobretudo dentro de uma empresa onde se quer galgar posições, sempre há disputas. Acho que isso é o menor dentro da profissão. Nós os artistas temos que nos superar a cada dia, claro que cada um é um, eu levo muito esses desafios de ter concorrência por um papel para o lado da emulação, neste caso os bailarinos se aprimoram e se esforçam mais, vendo os seus colegas dançarem. Aprendemos assim. Sou muito observadora e sempre quis ultrapassar limites mesmo sabendo que alguns eram impossíveis.

K&K News: Como você lidou com as lesões durante sua carreira?

Ana: Quando somos jovens dançamos mesmo machucados, eu fiz isto milhares de vezes, hoje em dia sou muito mais correta com o meu próprio corpo. Acho muito importante o bailarino ter um fisioterapeuta anjo atrás de si, porque a gente expõe o físico a um estresse total. Acredito que muitas carreiras aqui mesmo no Theatro Municipal foram encurtadas porque as pessoas não tinham acesso a um bom fisioterapeuta. Eu por exemplo tenho um médico que me acompanhou a vida toda, Dr. João Ayoub. Mas devo confessar que quando eu era iniciante na carreira fiz muita coisa errada como, por exemplo, voltar aos exercícios antes dele autorizar, mas a maturidade nos ensina na vida e  de 15 anos para cá faço absolutamente tudo o que ele me manda fazer. Se eu danço até hoje, devo muito a toda prevenção e cuidado que ele teve comigo. Não posso deixar de citar o Dr. Carlson Binato médico do Theatro municipal, que sempre me atendeu em tudo o que me aconteceu dentro do teatro.

Ana Botafogo em "O Lago dos Cisnes"

K&K News: Quem são seus ídolos?

Ana: Margot Fonteyn, Márcia Haydée, Maya Plisetskaya, Charles Chaplin, Fernanda Montenegro, Lilia Cabral, Marília Pêra, Bibi Ferreira.

K&K News: Em seu ponto de vista, quais os prós e contras da maturidade tanto na carreira quanto na vida?

Ana: Na vida profissional me deu mais segurança em cena e sobre tudo sabedoria de curtir meus momentos em cena e de não me importar com pequeninas coisas. Na vida, a maturidade é boa para gente ter tranqüilidade, saber gerenciar sua vida melhor e nos obriga a ser mais dona de nossa vida. Os contras: são as ruginhas que nos aparecem mas fazem parte de nossas marcas , que fazer ?…rsrsrs

K&K News: Podemos perceber que você diversificou bastante sua carreira, Clássico, Popular, agora o contemporâneo com o grupo DC, o que você atribui a essa diversidade de projetos e o que isso agregou a você?

Ana: Sou uma bailarina essencialmente clássica, sempre gostei de fazer os grandes clássicos, mas tive a necessidade e a vontade de levar este meu ballet mais próximo do povo. Antes de entrar no Theatro Municipal fiz espetáculos coreografados por  Dalal Achar, que  tinham o intuito de popularizar o ballet, levar público leigo a conhecer e gostar desta nobre arte . Fui ,na realidade a musa inspiradora para alguns desses balés  como: Romeu e Julieta pop, Cinderella e Sonho de uma noite de carnaval . Então a partir daí, durante estes mais de 30 anos de carreira, levei sempre minha dança para perto do povo, para eles terem chance de conhecer o que era dança e o que era ballet.

K&K News: Como foi o ícone do Ballet trabalhar ao lado de ícones da dramaturgia?

Ana: Eu fiquei absolutamente encantada com todos os ícones da nossa dramaturgia que estavam em minha volta. Eu tinha um núcleo familiar importantíssimo só com grandes atores e eu era filha de Glória Menezes e Tarcisio Meira. Eram atores consagrados e experientes, que me ajudaram muito.  Lá me sentia uma novata (aliás, era o que eu era ) em início de carreira , como foi quando comecei lá em Marseille: ávida por conhecimento e tendo que tudo absorver . Foi um presente maravilhoso estar no meio de grandes ícones; eu pude aprender muito, pois quando não estava gravando eu ficava em volta assistindo as outras gravações.

K&K News: Quais são seus projetos futuros?

Ana: Por enquanto para um futuro próximo eu ainda tenho muitos espetáculos para dançar; em junho, faço espetáculos fechados no Rio de Janeiro e depois vou a Brasília e Cruzeiro no interior de São Paulo, Em julho participo dos Festivais de Petrópolis e Friburgo e então estrearemos uma temporada com coreografias de David Parsons  no Theatro Municipal . No segundo semestre vou fazer algumas viagens como convidada me apresentando em diferentes cidades e pretendo me dedicar a alguma produção clássica, que certamente será produzida por mim.

K&K News: Qual o conselho que você pode dar para as gerações futuras?

Ana: Que trabalhem muito, que façam muitas aulas e escutem seus professores, porque quem está de frente para o bailarino sabe o que é melhor. Pensar muito na alma do bailarino é meu conselho; que não esqueçam a alma, porque no mundo em geral, a técnica e o vigor físico melhoraram muito nesta nova geração, mas por favor não esqueçam da alma, porque a alma do bailarino é importantíssima, e  é isso que nos faz diferentes de qualquer atleta.

As perguntas feitas pelos fans se encontrarão respondidas brevemente na categoria de “Making off”

Roberta Marquez

abril 28, 2010

Como muitas meninas, aos quatro anos de idade Roberta Marquez começou a fazer aulas de ballet. Quando assistiu pela primeira vez “O Lago dos Cisnes” no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ficou completamente encantada, e, naquele momento decidiu que queria ser bailarina. Logo, aos 15 anos, passou a fazer parte daquele encanto, entrando para a Cia. do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Hoje, como primeira bailarina de uma das mais importantes Cias. de Dança do mundo, a Royal Academy of Dance, de Londres, encanta o público com seu carisma e sua dança.

O Kerche & Kerche News teve o privilégio de entrevistá-la e agora tem o prazer de compartilhar tudo com vocês.

Roberta Marquez

K&K News: Conte-nos como foi sua ascendência à 1ª bailarina do TMRJ e depois se tornar bailarina de umas das principais Cias de Ballet do Mundo?

Roberta: Tive a oportunidade de trabalhar com Nathalia Makarova na época em que Dalal Aschar era diretora do TMRJ, elas ajudaram muito no início da minha carreira, e, quando dancei “La Bayadère”, de Makarova, fui promovida à primeira bailarina, após isso, fui convidada a dançar “A Bela Adormecida”, também produção de Nathalia Makarova, para o Royal Ballet. Terminado o espetáculo, a diretora do Royal Ballet me fez um convite irrecusável: um contrato como primeira bailarina.

K&K News: Qual a reação dos bailarinos da Cia. quando você chegou como primeira bailarina?

Roberta: A Cia. foi muito simpática comigo desde a minha ida como bailarina convidada.

K&K News: Como foi trocar o calor do Rio de Janeiro pelo frio londrino?

Roberta: Nada fácil! A única coisa que não gosto em Londres é o clima.

K&K News: Como é o seu dia-a-dia no Royal Ballet?

Roberta: Faço aula de uma hora e meia, ensaio três diferentes ballets seis horas por dia e à noite, espetáculo!!!

K&K News: Quais ballets você já dançou com a Cia. e qual mais gostou de dançar?

Roberta: “Cinderela”, “Ondine”, “Theme and Variation”, “The Lesson”, “A Bela Adormecida”, “O Lago dos Cisnes”, “Coppelia”, “La Fille Mal Gardée”, “La Sylphide”, “O Quebra Nozes”, “A Midsummer Night´s Dream” (“Sonho de uma Noite de Verão”), “Symphonic Variation”,  “Giselle”, “Eugene Onegin”, “Symphony in C”, “O Pássaro de Fogo” e vários outros… Meus favoritos??? “Romeo e Julieta”, “Manon” e “La Bayadère”.

K&K News: Como é a sua vida em Londres?

Roberta: Ballet, ballet, ballet.

K&K News: E fora o ballet, costuma jantar com amigos, sair para dançar, ir ao cinema?

Roberta: Na maior parte do tempo estou com meu namorado, vamos jantar em casa de amigos, ao cinema e quando temos o fim de semana livre, viajamos.

Roberta Marquez em La Bayadere


K&K News: Que tipo de filme prefere, ação, suspense, terror, drama?

Roberta: Comédia romântica e drama.

K&K News: Quais são seus atores preferidos?

Roberta: Al Pacino, Anthony Hopkins, Meryl Streep, Renée Zellweger.

K&K News: Qual é a parte preferida no seu trabalho (aula, ensaio, espetáculo), e por quê?

Roberta: Gosto muito de fazer aula e de ensaiar, mas tudo isso é só o processo de preparação para o espetáculo que é, sem dúvida, a minha parte favorita. É quando mais me sinto realizada como artista. Acho fascinante poder interpretar diferentes personagens.

K&K News: Bailarina sempre pensa duas vezes antes de comer qualquer coisa, mas todo mundo tem um prato que perde a linha, qual seria este?

Roberta: Feijoada é o prato que mais tenho vontade de comer aqui em Londres.

K&K News: Como esta sua agenda de compromissos, muitos convites para dançar, quais ballets estão programados este ano?

Roberta: Este ano, com o Royal Ballet tenho programados “Romeu e Julieta”, “La Fille Mal Gardeé”, “Cinderela”, “Symphony in C”, “A Bela Adormecida” e vários outros.

K&K News: Alguma perspectiva de nos dar o prazer de vê-la dançar no Brasil este ano?

Roberta: Estou com minha agenda bastante ocupada, mas quando se trata de dançar no Brasil, faço de tudo para poder ir. Se tudo der certo, em breve estarei dançando no meu país.

K&K News: Do que você tem mais saudades do Brasil?

Roberta: Sinto saudades de tudo, na verdade. Do sol, da comida, da família. Não posso ficar muito tempo sem ver minha mãe, sinto muiiiita saudade, apesar de ela vir bastante a Londres, gostaria de tê-la por perto sempre.

K&K News: Como é voltar para o Brasil e dançar como convidada?

Roberta: Não há melhor lugar no mundo para uma bailarina do que o palco e poder dançar no Brasil, para o público do meu coração, não tem sensação melhor.

K&K News: Quais são seus planos para o futuro?

Roberta: Quero seguir crescendo como artista e um dia passar adiante tudo que aprendi, tenho várias idéias e planos, mas ainda tenho muitos anos como bailarina pela frente e estou concentrada nisso.

K&K News: Qual é o conselho que você gostaria de dar para a nova geração de bailarinas e bailarinos?

Roberta: Para chegar a ser primeira bailarina tive que trabalhar muito!!! Mas, acho que minha paixão pelo Ballet foi o que me ajudou a ser a bailarina que hoje sou. Por isso, meu conselho é: muito trabalho e muita paixão naquilo que faz, nunca desistir dos sonhos e correr atrás daquilo que quer e acredita.