O mundo perde mais um mestre: Quem foi Flávio Salles.

julho 14, 2011

por Roberta Camargo

Como falar de sapateado e não mencionar Flávio Salles? E como falar dele sem citar o sapateado? Flávio Salles era um ótimo sapateador. Não só mais um bailarino de sapateado; ele foi figura importantíssima para a popularização e divulgação da arte de sapatear, principalmente no Rio de Janeiro.

Todos têm um outro lado da história para contar, porém, no caso do sapateador, sua vida sempre esteve ligada à música e ao exercício corporal. Flávio Salles, em entrevista para o site “Tap Web”, em janeiro de 1999, revelou que, no início, era atleta do Fluminense em saltos ornamentais e ginástica de solo. Seu primeiro contato com a dança ocorreu quando ele tinha entre 14 e 15 anos: Bertha Rosanova foi contratada por seis meses para dar aulas de ballet para o grupo. Porém, Flávio só voltou a dançar novamente aos 18 anos, quando começou no jazz. Ao mesmo tempo, ele entrava para a Escola de Belas Artes da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Nesta mesma época, Flávio cantava e tocava violão, chegando a competir em vários festivais e até a gravar dois discos com composições próprias. Esse lado “cantor” de Flávio começou na década de 80, quando ele chegou a fazer uma turnê pelo Brasil com Nana Caymmi e Johnny Alf. O sapateador ganhou o primeiro prêmio no Festival Lubrax da Sala Cecília Meirelles como melhor cantor e, ainda, ganhou um espetáculo próprio no Teatro João Caetano. Dessa forma, Flávio Salles fez não só uma grande carreira como sapateador, mas como cantor e compositor também.

Entretanto, Flávio não conseguiu fugir da dança. Sua paixão pelo palco e pela movimentação do jazz o fez voltar a dançar, desta vez na UNIC (Universidade de Cuiabá, no Mato Grosso). Fez aulas de afro com Gilberto Assis, e foi no intervalo de uma dessas aulas que ele assistiu a uma aula de tap por Pat Thibodeaux, professora norte-americana erradicada no Brasil que lecionou para uma grande geração de sapateadores (entre eles, o próprio Flávio). Segundo ele mesmo, aquela aula de sapateado o fez ficar “alucinado”.

Foi assim que Flávio Salles começou a sapatear. Após 6 meses de aula, a UNIC fechou para férias, e ele foi dançar na academia Corpore. Em pouco tempo, a professora Mabel Tude (que esteve recentemente em cartaz com a peça “Na cola do Sapateado”, no Rio de Janeiro) encaminhou o jovem para Tânia Nardini, que ensaiava na CAT (Centro de Artes do Tempo, onde o grupo “Catsapá”, de tap, se reunia). Flávio, que fundou o grupo junto com Valéria Pinho, se empenhou cada vez mais no aprendizado da técnica e logo deu aulas nas academias Corpore e Corpus. Com um prestígio crescente, saiu em uma entrevista para o Segundo Caderno, do Globo, levando-o a ser convidado para trabalhar na Faculdade da Cidade (UniverCidade), em 1986.

Flávio criou todo o programa da disciplina de sapateado da Faculdade, onde lecionou até 1992. Na mesma época, coordenou e deu aulas de sapateado na Academia de Ballet Dalal Achcar. Ainda, ministrou vários cursos de Tap ao longo de toda sua carreira, como o Cuballet realizado em Niterói (RJ), em 1992; trabalhou em várias edições do Tap in Rio, famoso evento de sapateado realizado anualmente no Rio de Janeiro; lecionou na 1ª e 2ª Semanas do Sapateado, na cidade de Uberlândia, MG; coreografou para a televisão, entre outros grandes eventos que contaram com sua participação.

O estudo de aprofundamento na arte do sapateado que Flávio teve que realizar para a criação de um programa de ensino superior com aprovação do MEC inspirou-o a escrever um livro só sobre o tap, em parceria com Amália Machado. O livro, que levou cinco anos para ser concluído, possui como ele afirmou na entrevista ao site, “fotos, nomenclatura, parte musical e programa de aula”. Com o nome de “Tap- A Arte do Sapateado”, foi lançado em 2003 e é o único em português sobre o tema.

Entre todas as realizações de Flávio Salles, uma das mais relevantes foi a criação, em Ipanema, da “Academia do Tap”. Em 1991, Dalal Achcar cedeu um espaço que possuía no shopping Fashion Mall, no Rio, ao sapateador, que fundou o Flávio Salles Tap Center. Segundo as palavras de Flávio, em um mês o espaço contava com mais de cem alunos. Porém, no final do mesmo ano o contrato de Dalal venceu, e Flávio, mais uma vez com a ajuda dela, abriu a primeira escola de sapateado do Rio de Janeiro, a “Academia”. Foi no ano de 1992 que o sapateador largou o ensino universitário para se dedicar exclusivamente à sua própria escola. A “Academia” conta com mais de 15 turmas, desde o baby-class até o mais avançado.

Ele também esteve presente em várias edições do Festival de Dança de Joinville, em Santa Catarina. Suas participações alternaram entre júri, competir com grupos de sua escola (ganhando o prêmio de primeiro lugar na categoria Avançado, em 2004) e ministrar aulas nos cursos de sapateado do Festival.

A esse currículo vasto se somou a remontagem da parte coreográfica de sapateado do musical Gypsy, de Charles Muller e Cláudio Botelho, em 2010, o que lhe rendeu uma indicação para o prêmio Shell.

Condensar toda uma vida em poucas linhas não é tarefa fácil, ainda mais quando se trata de Flávio Salles, que foi “sapateador, professor, coreógrafo, cantor e compositor, cursou faculdade de belas artes, escreveu um livro, artigos para jornais e fez direção de shows”. É assim que o site da Academia do Tap descreve o rapaz. Difícil dizer o quê ele não fazia. Mas é simples encontrar algo que ele não deveria ter feito: partir tão cedo.

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