João Wlamir

julho 14, 2011

por Mariana Faria

Dominante de um senso criativo magnífico, João Wlamir conta um pouco da sua trajetória versátil que o levou a chegar com êxito a um patamar tão alto na sua carreira profissional. Destemido, ele não ousa em falar sobre as verdades do meio e alerta aos futuros bailarinos para a realidade desse mundo encantador que é a dança.

DK: O que você dançou como bailarino que foi mais marcante na sua vida profissional?

JW: Todos os balés que eu dancei eu gostava muito, mas o que mais me marcou foi Hilarion em Giselle.

DK: Você enfrentou alguma dificuldade ao longo da sua trajetória?

JW: Sim. Eu comecei a dançar com 21 anos e eu fazia Ed. física, meu corpo já era todo formado em uma estrutura diferente. Então tive que fazer muito alongamento e correr atrás do tempo perdido. A minha dificuldade maior foi essa, mas não tenho nada a reclamar da minha carreira, porque sempre ganhei coisas que achava que não poderia fazer. Então todos os papeis, as performances, que eu fiz foram muito bons pra mim. Não encaro como uma dificuldade e sim como um crescimento, como um trabalho. Foi uma superação. A cada etapa vencida era mais um degrau que eu subia.

DK: O que o Theatro Municipal representa pra você?

JW: O Theatro Municipal é um divisor. Você sai de uma etapa amadora e parte para uma categoria profissional. Na realidade o Municipal é meu alicerce, meu porto seguro.

Ele é poderoso, é uma escola. E ao integrar aquele espaço, você aprende muita coisa.

DK: O que você tem a falar sobre o festival de Joinvile?

JW: Sou conselheiro do festival de Joinvile. Vejo que aquilo ali é de uma importância brutal para os bailarinos e pra mim também pessoalmente.

Trabalho em Joinvile há mais ou menos há 10 anos. Fui jurado, do clássico, do jazz, da dança contemporânea, fiz a noite de gala dos 25 anos e vou fazer também a gala dos 30 anos junto com a Fernanda chamas ano que vem. Joinvile também é um porto, onde se tem uma estrutura fantástica pra você trocar ideias, desenvolver seu trabalho e seu conhecimento.

DK: Você foi por muito tempo jurado do festival de Joinvile e agora participa do programa Se Ela Dança Eu Danço. Pra você é diferente julgar na televisão?

JW: Sim, é diferente. Na televisão é preciso estar com dez olhos ao mesmo tempo. Você tem que estar com os ouvidos sempre muito atentos, porque ao mesmo tempo em que o diretor está te dirigindo, você precisa prestar atenção no candidato. Você tem que sempre estar com a ideia de que é televisão e requer alguns ganchos para prender o telespectador, então tem que prestar atenção naquilo que se vai falar. E também tem o personagem que eu tenho que fazer. É tudo muito sério, eu sou um cara sério no julgamento. Aquele sujeito que julga mais rigidamente que todo mundo. È tudo maximizado. É preciso estar muito atento com tudo que acontece a sua volta, não posso estar relaxado. O esgotamento é bem maior. Em Joinvile é uma coisa que você observa como artista. Depois de julgar, você vai pro seu Quarto hotel, pensa no que você viu. Tem um tempo maior pra você pensar. Você tem um trabalho mais confortável. Na televisão é tudo imediato e tem que estar muito atento para não errar.

DK: E o João Wlamir é tão durão quanto no programa?

JW: Eu sou sério no meu trabalho e naquilo que eu me proponho, mas também sou extremamente amoroso e compreensível. Acho que a arte da dança é séria. O balé clássico tem que ter uma disciplina que não vem acontecendo.  A gente ultimamente tem estado muito relaxado. Todo mundo acha que pode dançar, mas nem todo mundo pode ser bailarino e eu vejo isso muito agora com o programa.

DK: Quando o John Lennon se apresentou ele conseguiu arrancar algumas lágrimas suas. Ele te impressionou muito?

JW: O John Lennon foi uma surpresa maravilhosa. Ele é um artista nato, um talento puro, que há muito tempo que eu não vejo. O menino é realmente Genial. Eu o chamei pra fazer uma participação na minha peça (lado B) com o número apresentado no programa, a gente fica meio desconfiado. Será que foi um golpe de mestre que ele deu, com a morte do cisne?  Mas no ultimo dia da peça eu pedi pra ele improvisar, dentro do estilo dele que é o Hip Hop. Eu coloquei uma musica clássica, dei um beethoven na hora pra ele, e realmente o cara é incrível, tem uma musicalidade  uma espiritualidade, uma maneira de compor o movimento com principio meio e fim, improvisando.A cada dia que ele dançava eu me emocionava. Eu aposto todas as minhas fichas nele na vida profissional, independente do programa.

DK: Ele seria então seu candidato favorito?

JW: Sim.

DK: Como foi pra você fazer e dirigir a comédia dançada Lado B?

JW: A gente bailarino clássico, tem um espírito muito crítico. Por incrível que pareça a gente não é tão serio, não somos sisudos. Temos um humor miserável. A gente tem essa abordagem, essa maneira da gente se olhar e se sacanear. É aquela história a gente não pode passar isso para o publico, mas nós sabemos quem somos. Temos esse lado meio doido, áspero às vezes, mas a gente ama a dança. O balé clássico realmente é a arte perfeita.

DK: Como você vê a situação da dança no Brasil hoje?

JW: Eu comecei a fazer dança nos anos 80, e de lá pra cá o balé esta se tornado uma coisa corriqueira. O que eu estou gostando do programa é que a audiência é dada por um público mais simples. A dança tem se desmitificado. Hoje não é mais vista como uma arte de esquerda ou uma coisa esquisita. As pessoas querem se profissionalizar. A qualidade dos espetáculos e também dos bailarinos está muito melhor.

DK: Você tem alguma mensagem para deixar para os jovens que estão começando a vida profissional na dança?

JW: Tenho um conselho, ele é meio acido, mas é isso mesmo. Muitos escolhem a dança, mas a dança escolhe muito poucos.. A gente tem que ter essa mentalidade. Nem todo muito vai se tornar um grande bailarino ou um grande coreógrafo. A gente tenta, eu to tentando até hoje. A dança tem outros caminhos, a gente tenta embarcar, naquilo que a gente acha que vai ser bom.

 

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